Aparentemente,
o pesadelo bolsonarista entra na fase agônica. Em breve, será substituído por
outros pesadelos, de um país que abdicou do senso civilizatório.
Forma-se
a tempestade perfeita. E, desta vez, contra Bolsonaro. Aparentemente, o
pesadelo bolsonarista entra na fase agônica. Em breve, será substituído por
outros pesadelos, de um país que abdicou do senso civilizatório.
O jogo é
simples de entender.
Em
qualquer organização criminosa, a coesão depende da capacidade do chefe de se
mostrar poderoso. Quando começa a vacilar, ocorre o desembarque dos
aliados de ocasião e, principalmente, daqueles envolvidos em ações criminosas.
Era essa
a percepção de Bolsonaro, quando se ampliou seu conflito com o Supremo Tribunal
Federal (STF). Gradativamente, seus principais seguidores foram sendo
engolfados por denúncias e ações judiciais – os irmãos Weintraub, Ricardo
Salles, general Pazuello. A CPI do Covid acelerou o processo, denunciando os
militares envolvidos na esbórnia da saúde.
Montou-se
um cabo de guerra, tendo de um lado Alexandre de Morais, Ministro do STF, e de
outro Bolsonaro. Entende-se por aí o desespero de Bolsonaro. Se ele não
enfrentasse e vencesse a contenda, haveria a debandada de seu grupo.
No
desespero, tentou de tudo. Apelou para as Forças Armadas, blefou o quanto pôde,
fez paradas de motos, convocou seguidores para manifestações, valeu-se o quanto
pôde do Gabinete do Ódio. Nada deteve a marcha do STF.
E aí
revelaram-se dois Bolsonaros, o da realidade virtual e o do mundo real.
O da
realidade virtual tem a assessoria profissional de Steve Bannon, no objetivo
único de animar seguidores. O do mundo real é cercado de uma mediocridade ampla
e irrestrita, de generais da reserva oportunistas, sem lastro intelectual e sem
conhecimento político. Só um completo analfabeto político faria como o Ministro
da Defesa, Braga Netto, de blefar na ameaça ao Congresso, e não ter mais
nenhuma carta à mão quando Congresso e STF pagaram para ver.
Paralelamente,
o governo Bolsonaro passou a ser totalmente desacreditado no front econômico.
No início, Guedes se sustentou com sua conversa de vendedor de biotônico e sua
disposição de entregar ao mercado os grandes negócios da privatização. Era uma
maneira de disfarçar sua gritante anomia em relação aos problemas reais da
economia.
Gradativamente,
as magias de Bolsonaro e Guedes foram cansando por falta de inovação. Sempre a
mesma coisa, Bolsonaro criando eventos para chocar e Guedes manipulando
conclusões econômicas falsas. O avanço inexorável da realidade esvaziou ambos
os discursos.
Agora se
tem a derrota plena de Bolsonaro nas seguintes frentes:
perdeu a
batalha para o STF, depois de uma tentativa desastrada de tentar individualizar
os alvos – Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. Conseguiu a unanimidade
do Supremo em defesa dos seus.
O blefe
do impeachment de ambos os Ministros. Teve que voltar atrás na forma mais
atabalhoada possível: em uma mesma live, dizendo-se aberto para rever a ambos
e, ao mesmo tempo, reiterando as críticas. Um bufão!
O blefe
da intervenção militar, claramente exposto pelo cantor Sérgio Reis. Bolsonaro
só conseguiria mobilizar as Forças Armadas no bojo de grandes movimentações
populares em defesa do golpe. Não conseguiu uma coisa nem outra. Já Sérgio Reis
conseguiu um processo do qual não irá se livrar facilmente.
O blefe
da ameaça de Braga Netto ao Congresso. Teve que aceitar uma convocação para uma
audiência na qual ouviu de um deputado da oposição – Paulo Teixeira, do PT –
que, se não acatasse a Constituição, seria preso. A total desarticulação de
Paulo Guedes com a reforma tributária, e tentando se equilibrar entre o
auxílio-emergêncial – essencial para a recondução de Bolsonaro – e a Lei do
Teto.
As
declarações do presidente do Senado, que desceu do muro para atacar as ameaças
às eleições. O cerco implacável ao Procurador Geral da República Augusto Aras,
obrigando-o a atuar com firmeza na denúncia dos quadros bolsonaristas que
ameaçavam manifestações no dia 7 de setembro.
Derretimento
gradativo de sua popularidade
Agora, o
primarismo de Bolsonaro, que o habilita no máximo a jogos de porrinha, terá que
enfrentar um xadrez complexo.
Se
avançar mais, será impichado. Se não avançar, perderá sua base.
Não tem a
menor condição de propor um pacto nacional, por não ter dimensão política, nem
credibilidade. O pior é que, para ele, não há empate. Sendo apeado do poder,
será julgado, condenado e amargará prisão por seus crimes. Não apenas ele como
todos seus filhos. Ele não tem nem dimensão política para negociar uma lei da
anistia, igual àquela que preservou da Justiça militares sanguinários, que
voltaram ao poder com ele.
Autor:
Luis Nassif – Publicado no Site GGN