Em
2015, durante a cerimônia de outorga prêmio de doutor honoris causa na
Universidade de Torino, o romancista, filósofo e teórico da literatura e da
linguagem Umberto Eco deu uma de suas declarações mais polêmicas. Segundo o
célebre autor de O nome da rosa, da Editora Record, “a internet deu voz a uma
legião de imbecis”. O comentário algo ranzinza, por não ser de autoria de algum
sorumbático niilista dos tempos digitais, mas sim de um notável comunicador,
erudito que alcançou a celebridade pop, especialista de mídias e de comunicação
em amplo sentido, não apenas causou significativo furor – na internet em
especial, é claro – como também foi levado a sério por muita gente boa, como
deveria, mesmo, e resultou em algumas reflexões interessantes sobre as ilusões
de nosso entusiasmo digital.
Crédito da Imagem: Taisilia Shestopal / Unsplash
Eu
tive o privilégio de entrevistar Eco em sua residência, em Milão, para as
Páginas Amarelas da revista Veja poucos dias depois de sua famosa declaração
sobre a internet, em junho de 2015. Fui recebido por sua esposa, Renate, um
pouco espantada pela minha chegada no domingo pela manhã (eles haviam se
confundido com o horário agendado para a entrevista, esperavam-me à tarde), mas
que prontamente me preparou um café, se pôs a conversar comigo sobre alguns
quadros da casa – ela é especialista em história da arte – e insistiu que eu
visse os livros que quisesse enquanto ela tentava contatar o marido – Eco
estava se divertindo em uma feira de livros antigos ali pelas redondezas do
Castello Sforzesco.
De
uma das janelas da sala em que eu aguardava, avistava uma das torres do
Castello. O domingo tornava tudo tranquilo, e a própria experiência de eu estar
ali para entrevistá-lo, assumia algo de irreal, de fantástico.
Eco
chegou pedindo desculpas pela confusão, bastante suado (o calor de junho) e um
pouco molhado da chuva. Prontamente pôs-se a falar. Gentil, interessado no
interlocutor – não há como não dizer: bonachão! –, mantinha um charutinho no
canto da boca (ele não fuma mais, mas o hábito...) e falava, ao saber que eu
recém chegara de um colóquio sobre Aristóteles em Paris, sobre a recepção da Poética
do Estagirita na Idade Média, sobre como foi sua paixão pela estética de Tomás
de Aquino (fato que ainda me surpreende) e sobre como a atual ultra
especialização acadêmica o espantava e o aborrecia. Senti-me em casa e, ainda
assim, maravilhado.
Quando
passamos à entrevista propriamente dita, centrada em seu romance mais recente –
e que seria seu último –, Número Zero, e em seus temas principais (jornalismo,
desinformação e política, conspirações, etc.), era um prazer ouvi-lo
especialmente pela generosidade com que tentava me fazer tirar melhor proveito
das minhas perguntas. Eu, obviamente nervoso, fui me soltando aos poucos graças
à experiência do entrevistado, claro.
Minha
conversa com Eco, assim como a leitura de seu livro Número Zero, hoje, volta-me
fortemente à memória em função do acirramento precisamente daqueles temas
acerca dos quais ele tratava: a radicalidade com que a internet e,
especialmente, as redes sociais, tem servido para universalizar a circulação
das mais estapafúrdias e esdrúxulas opiniões – o que foi agravado durante o
período desta pandemia global que vivemos.
Quando
perguntei a Eco sobre sua declaração, quis saber o que ele achava do eventual
potencial “crítico” da internet. Sua resposta parece-me ainda hoje pouco explorada:
“No caso da internet, não penso que ela possa fazer a crítica da vida, porque o
trabalho crítico significa filtrar, distinguir as coisas, ao passo que a
internet é como o personagem do [escritor argentino Jorge Luís] Borges, Funes,
memorioso: ela lembra de tudo, não esquece nada. Seria preciso exercer essa
crítica — filtrar, distinguir — sobre a própria internet. Eu sempre digo que a
primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a
internet: como analisar e filtrar informações. O problema é que nem mesmo os
professores estão preparados para isso. Foi nesse sentido que eu defendi
recentemente que os jornais, em vez de se tornarem vítimas da internet,
repetindo o que circula na rede, deveriam dedicar espaço para a análise das
informações que circulam nos sites, mostrando aos leitores o que é sério, o que
é um hoax, por exemplo. Será que os jornais estão prontos pra isso? Seria
preciso ter gente especializada em diversas áreas. Obviamente, sendo você um
conhecedor de Aristóteles, você consegue reconhecer se um site é bom ou não,
mas você não poderá fazer o mesmo com um site sobre teoria das cordas. A
crítica da internet exige um novo tipo de expertise, mesmo para os
jornais. E isso é muito importante para os jovens, pois eles não têm, aos 15,
16 anos, os conhecimentos necessários para filtrar as informações a que têm
acesso na rede. Ora, assim como quem lê diversos jornais acaba aprendendo a
distinguir abordagens distintas da parte dos jornais, os jovens hoje precisam
aprender a buscar essa variedade de abordagens nos sites que frequentam.”
Seis
anos depois, a situação parece apenas ter se degradado – e muito. Das loucuras
parcialmente inofensivas que sempre estiverem expostas na rede mundial às
teorias conspiratórias mais perigosas, o que os anos seguintes à declaração de
Eco nos mostraram é que essas redes viriam a desempenhar um papel decisivo na
crise das democracias que todos estamos testemunhando já há alguns anos. (Um
filme espetacular sobre isso está disponível no Netflix: Rede de Ódio, do
diretor polonês Jan Komassa).
Aliás,
Número Zero, o romance de 2015, abordava o tema dessas teorias conspiratórias,
muitas das quais ganharam vida nos últimos anos. Das loucuras trompistas sobre
“fraude” nas eleições americanas às campanhas anti-vacina (mesmo em meio à
pandemia), parece que a principal forma de imbecilidade praticada e disseminada
pela internet é justamente essa pletora de teorias conspiratórias, muitas das
quais acabam por ter resultados fatais (vide mortes no Capitólio, ou
disseminação de um vírus letal). Eco, aliás, foi um notável investigador das
teorias da conspiração, e sua lição na entrevista que fiz com ele foi
cristalina: “Há muitos anos que eu me interesso por conspirações, ou, melhor
dizendo, pela semiótica das conspirações, sobre como construímos uma
conspiração.
Ora, o fato é que o mundo sempre foi repleto de conspirações. Há
um ensaio seminal de Karl Popper [“The Conspiracy Theory of Society”] sobre
isso que é bastante esclarecedor: nós podemos encontrar conspirações na Ilíada [de
Homero], com os deuses do Olimpo tramando o envolvimento de certos personagens
ou a própria ruína de Troia. A ideia de conspiração é contínua. Tome o exemplo
dos Templários na Idade Média; tome o exemplo das teorias do Abbé Barruel, no
século XVIII, afirmando que a Revolução Francesa de 1789 foi fruto de uma
conspiração de sociedades secretas como os Maçons e os Illuminati; depois
disso, os judeus foram acrescentados à trama, com o as teorias sobre os
Protocolos dos Sábios de Sião. Hoje, se você procurar na internet, há centenas
de teorias da conspiração. No meu romance [Número Zero], há um personagem,
Braggadocio, que é um paranóico, que constrói a sua própria conspiração. A sua
teoria contém o único elemento da trama histórica que é puramente inventado —
eu não acredito que Mussolini não tenha sido executado em 1945, etc. Isso é uma
invenção, a invenção de um paranóico.
Contudo, todo o restante da trama
histórica que eu narro e que é parte da teoria conspiratória de Braggadocio
realmente aconteceu. A questão é que nós devemos distinguir entre conspirações
verdadeiras e conspirações falsas. A característica de uma conspiração
verdadeira é que ele é invariavelmente descoberto. Houve uma conspiração para
matar Júlio Cesar, e todos sabemos; houve uma conspiração para matar Napoleão
III, que fracassou em seus propósitos, mas todos a conhecemos. O perigo está
nas conspirações falsas, pois você não pode desmenti-las — elas simplesmente
não existem! Elas se prestam, no entanto, à manipulação: quem quiser tirar
proveito delas, pode montar contra conspirações muito reais: o que Hitler fez,
aceitando e propagando a falsa conspiração dos judeus, foi criar sua própria
conspiração.”
Agora
que estamos todos acompanhando vivamente a expansão de tantas e tão novas
formas de teorias conspiratórias afetando nossas vidas (fraude de urnas,
vacinas que transformam as pessoas em jacarés, etc.), confesso que a recordação
desse belo momento de conversa com Eco me deixou com um misto de pessimismo
amargo, de um lado, por termos chegado a níveis tão impressionantes de difusão
da perversidade, com uma pontinha de otimismo “ponderado”. Vou buscar na
própria experiência de entrevistar Eco esse otimismo.
Terminada
a entrevista, feitas as análises sobre a imprensa, a internet, o estado da
cultura e um mergulho em seu livro mais recente, Eco generosamente dispôs-se a
mostrar-me uma outra dimensão do mundo – este mesmo mundo que nós habitamos, e
que frequentemente julgamos ser apenas consumido por essas tolices,
“imbecilidades” ou sandices: o mundo de James Joyce e Jorge Luis Borges, seus
dois heróis literários.
Explico-me.
Passando pelos corredores de seu apartamento, abarrotados de livros, paredes e
mais paredes, primeiro exibiu-me com grande entusiasmo uma parede em especial,
repleta de edições do "Ulysses" (a brasileira, de Houaiss, entre
elas), e, com uma felicidade quase infantil, mostrou-me a primeira edição
autografada pelo próprio Joyce. Depois, levou-me por uma sala dedicada
exclusivamente a livros medievais e renascentistas sobre línguas, línguas
inventadas, elaborações de línguas perfeitas e outras fantasias, para logo
depois, na sequência de um corredor que parecia não ter fim, ingressarmos em um
imenso salão com a biblioteca de Filosofia -- qual a sala mais
fantasiosa?
E
ali estava Borges. Não como Joyce, presente na assinatura da primeira edição
(ainda que também assim), mas em tudo: no quadro da Catedral Branca que pendia
nas paredes da sala, nas iluminuras expostas pelos corredores, na bibliofilia
real de livros fantásticos, na fantasia vivida cotidianamente por aquele homem
que supunha uma continuidade perfeita entre o marido bonachão que vai à feira
de livros da vizinhança e o criador de mundos tortuosos, cômicos, labirínticos
da ficção que suplanta, momentaneamente, a realidade.
Anos
depois dessa magnífica jornada em Milão, ainda fico com a sensação de que não
me despedi. Talvez por isso meu otimismo. Sinto que fiquei por lá, entre um
livro sobre a Kabbalah e um tratado sobre o tomismo anacrônico de Wittgenstein,
como se me deixasse assimilar àquele mundo de símbolos da cultura, da arte e do
pensamento – nossa melhor resistência às mentiras, às falsidades e às loucuras
perversas do mundo, digital ou não.
Autor:
Eduardo Wolf