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6 de agosto de 2026

Tempos de desinteligência!

 

O fenômeno da I.A. (Inteligência Artificial) invadindo nossas vidas na medicina, engenharia, internet, informática e praticamente tudo que fazemos já é uma realidade absoluta. Não tem volta, não tem retorno. Em outros países robôs fazem um automóvel completo em minutos. Cirurgia são realizadas com auxílio de IA e seus robôs.          

E não vai parar neste estágio de forma alguma, muitas outras coisas farão com que essa evolução até este momento pareça ser obsoleta. O cientista da computação e futurista americano Ray Kurzweil conhecido por desenvolver tecnologias de reconhecimento de falas, descobrir o sensor óptico de caracteres (OCR), síntese de voz, além de fazer previsões de longo prazo sobre a evolução tecnológica.

Desde 2012, trabalha na Google em projetos relacionados à inteligência artificial e processamento de linguagem. Anteriormente previu o boom da Inteligência Artificial muito antes dela começar. No seu livro, A Singularidade está mais próxima ele apresente a próxima transformação pela qual irá passar a humanidade.

Em 2032 > Velocidade de Escape de Longevidade – LEV. Que prevê que para cada ano que o ser humano viver... a ciência lhe devolverá um ano completo de vida. Com isso a expectativa de vida dos seres humanos começará a superar a passagem do tempo.

Durante o decorrer da década de 2030 prevê ainda que Humano e Máquina irão se fundir. Robôs do tamanho de moléculas poderão entrar em nosso cérebro sem cirurgia e nos conectarão diretamente a nuvem. Seria como ter um smartphone dentro de seu cérebro.

Para o ano de 2045 prevê que após o ser humano se fundir com a I.A. nossa inteligência se expandirá um milhão de vezes. Será o momento em que os humanos poderão transcender a biologia. Kurzweil chama isso de “Singularidade”. Um ponto em que a inteligência humana e a das máquinas se tornam indistinguíveis e a evolução se torna exponencial.

Diversos analistas apontam que Kurzweil antecipou corretamente tendências como:

·        smartphones com grande poder computacional;

·        internet amplamente difundida;

·        reconhecimento de voz;

·        assistentes digitais;

·        crescimento da IA;

·        avanços em aprendizado de máquina.

Ao ler e tomar conhecimento dessa trajetória do cientista americano e seu poder de conhecimento para prever e acertar essas mudanças significativas na vida humana, fico apreensivo ao lembrar que vivemos num país onde milhões de pessoas são analfabetas funcionais, precisamente 29% da população, onde apenas 8% sabem interpretar um texto e apenas 6% sabem diferenciar fato de opinião.

Um país onde alguns pastores mal intencionados doutrinam seus fieis com informações mentirosas sobre a vida, Deus, religião e política. Usam narrativas mentirosas que dizem ser baseadas na Bíblia sagrada e isso amedronta e coloca as pessoas num estágio de atraso sem igual perante o mundo.

Estamos lidando em nosso país com mortes de mulheres em virtude de termos homens criados em lares que não colocaram limites e não foram educados para saber receber um “Não” das mulheres e da vida. Milhares de mulheres morrem no Brasil porque “ousaram” se separar de homens violentos, agressivos e assassinos em potencial.

Um país com tantos atrasos e ainda por cima com uma elite nojenta, obscura, atrasada, preconceituosa e ignorante que é dona de 99% da riqueza do país. Pensam com o cérebro na Idade Média e com certeza não terão capacidade de absorver o mundo novo que está por vir nas previsões de cientistas.

Eu sinceramente não consigo prever a possibilidade da mudança no sentido previsto por Kurzweil para nossa gente descrente que não acredita nem que o homem pisou na lua e que foge de vacinações obrigatórias e gratuitas. Espero estar errado...

 
Autor: Rafael Moia Filho – Escritor, Acadêmico da ABLetras, Blogger, Analista Político e Graduado em Gestão Pública.

3 de agosto de 2026

“Ouvidos Moucos”, ou quando o país foi dominado pelo fascismo, por Luís Nassif

  

Luiz Carlos Cancellier - Reprodução.

Houve vaidade institucional desmedida, adesão coletiva a um clima de época em que destruir reputações parecia demonstração de virtude cívica. A “banalidade do mal”, de Hannah Arendt, continua sendo uma das explicações mais precisas para entender como pessoas aparentemente normais podem participar de engrenagens de destruição moral sem se perceberem como monstros. A tese de Arendt não era a de que o mal fosse pequeno. Mostrou que o mal extremo pode nascer da renúncia ao pensamento crítico, da submissão à rotina burocrática, da obediência automática a uma máquina institucional.

No Brasil contemporâneo, poucos fenômenos expressaram tão claramente essa dinâmica quanto o ambiente criado pela Lava Jato e por suas derivações. Não se tratou apenas de uma operação judicial. Foi um estado de espírito, um paroxismo que contaminou procuradores, policiais, juízes, jornalistas, políticos e parte expressiva da opinião pública. Criou-se uma fogueira inquisitorial em que qualquer cautela jurídica era tratada como cumplicidade com o crime; qualquer dúvida, como defesa da corrupção; qualquer garantia individual, como obstáculo à purificação nacional.

Espero que um dia alguns dos personagens desse período mergulhem nas próprias entranhas para compreender como a maldade pode se alojar em mentes aparentemente racionais. Como foi possível naturalizar conduções coercitivas abusivas, prisões espetaculares, vazamentos seletivos, linchamentos morais e ataques a familiares, esposas, filhos e filhas dos acusados. Como foi possível transformar o sofrimento alheio em espetáculo de televisão e, depois, apresentar-se como guardião da democracia que se ajudou a comprometer.

Houve o procurador que pediu a condução coercitiva de funcionários do BNDES, inclusive mulheres grávidas, e que, anos depois, no auditório do próprio BNDES, entregaria certidões de óbito retificadas a vítimas da ditadura. Houve o jornalista que alimentou a fogueira inquisitorial, que inaugurou o discurso pesado da ultradireita e hoje posa de campeão das liberdades públicas. Houve autoridades que, em nome do combate à corrupção, relativizaram direitos elementares e ajudaram a criar a cultura de exceção que depois ameaçaria a própria democracia.

E houve o procurador afável de Santa Catarina, que ordenou a prisão e o suplício moral de professores da Universidade Federal de Santa Catarina, transformando decisões administrativas corriqueiras em indícios de organização criminosa. Poucos casos foram tão explícitos quanto a Operação Ouvidos Moucos. A operação levou ao suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, destruiu reputações, lançou professores à cadeia e submeteu servidores a anos de processo. Tudo sob a lógica típica das cruzadas morais: primeiro se constrói o escândalo; depois se procura o crime que justifique o espetáculo.

Na época, escrevi sobre o procurador observando a foto dos filhos que emoldurava sua estante. Imaginei a cena doméstica: depois de um dia de trabalho, ele chegaria em casa, tomaria banho quente, vestiria o roupão, ligaria a televisão no Jornal Nacional e assistiria à prisão e à humilhação de suas vítimas.

  • Olha, filhinho, o que papai fez hoje.

A frase era cruel, mas traduzia a essência daquele momento: a incapacidade de perceber o outro como pessoa. O acusado deixava de ser professor, servidor, reitor, pai, mãe, filho ou filha. Virava personagem de uma narrativa penal previamente escrita. A biografia desaparecia; ficava apenas o papel atribuído pela acusação. Agora, anos depois, chegou ao fim o julgamento em primeira instância de dois dos acusados. Os tempos são outros. O procurador federal é outro. E o Ministério Público, após a produção das provas, pediu a absolvição por reconhecer que não havia elementos suficientes para sustentar a denúncia.

A origem do caso era muito menos espetacular do que a operação fez parecer. Tudo começou com apurações sobre verbas do programa Universidade Aberta do Brasil, administradas por fundação de apoio. Para lidar com a burocracia cotidiana — deslocamentos, motoristas, transporte de professores — a fundação contratava empresas credenciadas. Como a administração pública exigia cotações formais mesmo para despesas pequenas e recorrentes, consolidou-se uma prática comum em muitas universidades: a empresa acionada para prestar o serviço apresentava as propostas necessárias para cumprir a formalidade.

O que poderia ser tratado como irregularidade administrativa, falha de controle ou expediente burocrático disseminado foi transformado em prova de corrupção. A denúncia concentrou-se na contratação de motoristas para transportar professores. Compararam-se viagens para uma mesma cidade, apontaram-se discrepâncias de preços, sem levar em conta que, em um dos casos, houve o pernoite do motorista e, a partir daí, construiu-se a narrativa de direcionamento. Ou então, identificava um aluno que era carteiro dos Correios. Em vez de enaltecer seu esforço em se formar, era apresentado como prova de corrupção. Afinal, como pode um mero entregador de cartas pretender um curso superior.

O raciocínio acusatório era simples — e devastador: como os pedidos eram encaminhados com frequência à mesma empresa, haveria ali o sinal de um esquema. Pouco importava que o servidor ou coordenador só pudesse solicitar transporte a empresas previamente credenciadas. Pouco importava que os pagamentos fossem feitos diretamente pela fundação, que o professor ou coordenador não ordenasse despesas, não movimentasse recursos e não recebesse vantagem pessoal. O que importava era o escândalo.

A máquina já estava em marcha. A denúncia foi apresentada, os acusados foram presos ou expostos, as carreiras foram paralisadas, as famílias foram atingidas, a universidade foi humilhada. Durante anos, todos carregaram o peso de uma acusação que, ao final, não se sustentou. O próprio Ministério Público, nas alegações finais, reconheceu que as provas produzidas em juízo afastavam a participação dos acusados nos crimes imputados. A sentença acolheu a absolvição. Em linguagem jurídica, faltaram provas. Em linguagem humana, sobraram ruínas.

Esse é o ponto central. O fascismo cotidiano não aparece apenas na figura do ditador de botas, no partido de massas ou na saudação ritual. Ele também se manifesta quando instituições democráticas passam a operar com lógica de exceção; quando a presunção de inocência vira detalhe incômodo; quando o sofrimento do acusado se converte em ativo político, manchete ou troféu funcional; quando agentes públicos se convencem de que sua causa é tão nobre que já não precisam responder pelos meios utilizados.

A Operação Ouvidos Moucos é uma aula amarga sobre esse mecanismo. Não houve apenas erro. Houve vaidade institucional desmedida, adesão coletiva a um clima de época em que destruir reputações parecia demonstração de virtude cívica. Anos depois, a absolvição não devolve o que foi perdido, a vida de Cancellier, a serenidade dos professores acusados. Não apaga a humilhação pública, o medo, a solidão, o adoecimento, a marca deixada nos filhos e nas famílias.

Mas deixa uma lição: quando o combate ao crime abandona o direito, já não combate apenas o crime. Passa a produzir suas próprias vítimas. E, quando isso ocorre sob aplausos, manchetes e câmeras de televisão, a banalidade do mal deixa de ser conceito filosófico. Torna-se rotina administrativa. 

Autor: Luís Nassif – Publicado no Site GGN Notícias.

As leis da estupidez que conformam o idiota ‘ideal’. Por Lenio Streck.

  

Imagem ilustrativa. 

Nada é por acaso. É preciso refutar, de saída, a ideia de que o momento atual seja fruto de mera contingência. Há nisso uma agnotologia: a construção deliberada da ignorância. Robert Proctor, que cunhou o termo estudando a indústria do tabaco, mostrou que a ignorância não é apenas um vazio a ser preenchido; ela é produzida, financiada, distribuída.

Pois bem. Na era algorítmica, a estupidez deixou de ser condição inata ou deficiência cognitiva passiva. Ela virou “ciência empírica”. Tem método de validação, dinâmica de replicação imediata e até métricas de desempenho (os cliques), tudo otimizado por inteligência artificial e análise de dados comportamentais. O estúpido de antigamente era artesanal. O de hoje é industrial, com escala e engajamento.

O fenômeno pode ser decodificado a partir das célebres cinco leis fundamentais da estupidez humana, de Carlo M. Cipolla — depois retrabalhadas, entre nós, pela psicanálise de Mauro Mendes Dias —, sobre as quais já escrevi nesta ConJur. Transpostas para o ecossistema das redes sociais, com as adaptações que a experiência jurídica brasileira impõe, elas expõem a mecânica exata do declínio:

Lei número 1: sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos que circulam pelo mundo jurídico.

Lei número 2: a probabilidade de que uma pessoa enfiada até o pescoço nas redes sociais seja estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa. Título, cargo, seguidores: nada imuniza.

Lei número 3: estúpida é a pessoa que causa danos a outra sem obter benefício algum para si, podendo até sair no prejuízo. Se tiver formação jurídica, o estrago tende a vir com fundamentação.

Lei número 4: as pessoas não estúpidas sempre subestimam o potencial destrutivo das estúpidas.

Lei número 5: o estúpido é o tipo mais perigoso que existe. Mais que o bandido, dizia Cipolla, porque o bandido ao menos calcula.

A aplicação dessas “normativas” denuncia um tipo ideal (Weber me perdoe) de idiotia. As redes sociais abrigam uma verdadeira nesciocracia: o governo dos néscios, com direito a voto, réplica e emoji. E o leitor pode testar a tese empiricamente. Eis dois experimentos que fiz, à moda falsificacionista. Popper ficaria orgulhoso do rigor; do resultado, nem tanto.

Primeiro experimento: publique uma crítica às palhaçadas de certos repórteres de TV durante a Copa do Mundo, essa gritaria performática de quem se julga engraçado ou um(a) Einstein da mídia. Pergunto: será que aprendem isso nas faculdades? Fico imaginando o professor “ensinando” como pagar mico na frente das câmaras. Quanto mais palhaço, melhor.

Quando faço críticas a esse ECP (estado de coisas patético), confirma-se a lei número 2 (veja explicação anterior). Os comentários nas redes sociais confirmam também a crise do ensino e a terceirização da cognição. Mostra igualmente que diploma não encurta orelha. O índice de idiotice se mede pelos comentários que chegam em minutos: “muda de canal, chato”; “TV é diversão”; “e o Xandão, hein?”; “não vai falar do STF?”.

E note-se o ponto que o idiota não alcança: sou assinante de TV a cabo. Pago pela transmissão. Tenho o direito de assistir ao jogo sem exercícios ruins de humorismo. Veja-se o que ocorre com a TV Cazé. É espantoso. E os repórteres e comentaristas da Globo? Pensam que a população tem 10 anos de idade. Na verdade, têm certeza disso.

O streamer Casimiro, da CazéTV. Foto Reprodução

Daí a pergunta: por que o consumidor é que tem de mudar de canal, e não é o fornecedor quem deve melhorar o produto? Inverter esse ônus é naturalizar a precariedade do serviço. Mas o tipo ideal de idiota não discute o argumento; ataca quem o formula. Perdemos a capacidade de crítica e de indignação, e quem ainda a exerce vira “o chato”. Viva a chatice.

Segundo experimento, mais orgânico: publique uma crítica às vendas casadas travestidas de “desconto progressivo” nas grandes redes de farmácia. Um medicamento de alto custo sai por R$ 1.650 a caixa avulsa; comprando três, cada uma cai para R$ 1.148. Sim, é isso que você leu. Quer comprar uma só? Paga R$ 500 a mais pela mesma caixa. Isso tem nome no Código de Defesa do Consumidor, essa lei que ninguém respeita. Essa lei que foi desnominada para “lei que sustenta os meros aborrecimentos”. Faça o teste: vá até um juizado próximo a sua casa. Ainda: noutra rede, a caixa avulsa custa R$ 2.200; no combo de três, R$ 1.150 cada.

Que progressividade é essa que pune quem, naquele dia, só tem dinheiro para comprar uma caixa do remédio de que precisa? O caso mais inusitado: por telefone, descubro que uma rede oferece três por R$ 1.250 cada, mas só há duas no estoque. Bingo. Solução da atendente: leve as duas por R$ 1.640 cada. O desconto existe justamente na quantidade que a loja não tem. Por isso não ganhamos o Nobel. Só o Ignóbil.

E a reação dos néscios das redes: “o doutor não sabe o que é desconto progressivo?”; “não estudou direito?”; “troca de farmácia” (como se adiantasse: o cartel de práticas é o mesmo); “que cara chato é esse Lenio reclamando de desconto”; e, claro, o tradicional “por que não fala do caso Master?”. O coeficiente de idiotice cresce na exata do ódio de quem escreve. E, ne medida em que odeiam o semelhante em geral, pouquíssimos passam incólumes pelo Rubicão da Estupidez.

Reparem na estrutura comum aos dois experimentos. A crítica aponta uma lesão concreta a direitos (do telespectador assinante e do consumidor de medicamentos). Quantos artigos e livros já escrevi criticando o sistema de justiça? É minha função. Inclusive de caricaturizar as Igrejas que curam joelhinhos de velhinhas e vendem Ora Pron obis e remédios para enxergar melhor. Só na ConJur já escrevi mais de 1.200 colunas.

Mas a resposta nesciocrática jamais enfrenta o mérito das discussões postas pelo articulista e professor: ou desqualifica o crítico (“chato”), ou muda de assunto (“e o Xandão?”), ou normaliza o abuso (“é assim mesmo”). É a agnotologia em ato.

Atenção: não se trata de discordância, que é saudável e constitutiva do debate público; trata-se da produção ativa de ruído para que o argumento não seja sequer ouvido. A lei número 3 do Código da Estupidez em sua forma pura: o néscio não ganha nada defendendo a farmácia que o explora ou a emissora que o trata como imbecil e massa de manobra. Ele causa danos ao (i) debate, (ii) a terceiros e (iii) a si próprio. De graça.

Encerro com um pedido de utilidade pública a esse tipo ideal. Quem mantém uma rede social ou coluna em veículo jornalístico não implora que o leiam. Portanto:

– Não siga o perfil de um professor para odiá-lo. Ninguém lhe pediu.

– Não perturbe. Não despeje discurso de ódio.

– Não diga platitudes.

– Não passe recibo de néscio.

– As cinco leis já preveem o seu comportamento; surpreenda-as.

Vamos falar sério.

Post scriptum: esta coluna vale mais pelo simbólico. É minha solidariedade a quem se esforça nas redes sociais e em colunas para trazer informação, conhecimento — e esclarecimentos sobre a vida dura do cotidiano. Pelas pedradas que recebem(os). 

Autor: Lenio Streck – Publicado no Site do Diário do Centro do Mundo.