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21 de junho de 2025

Discurso da escritora portuguesa Lídia Jorge, pronunciado em 10 de junho de 2025.

“Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante. Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto. Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem. O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário. Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos. É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres. A escassos 40 quilômetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação. A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural. Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu. Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior. Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões. O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço. Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades. O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem ter uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto. Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez. Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda. Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceitual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu. Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto gênero, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império. E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia. É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista. No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjurios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”. Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram. Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência. Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”. Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura. No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros. Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço. Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assistem a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas. É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”. Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo. Mas existe uma outra perspectiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade. É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade. O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso. Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico. Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem. Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D. Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta. Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui, no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos. Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Cronica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença. É uma luta nossa, contemporânea. Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo. A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra. Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar. Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte. Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte. A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar nós ocuparemos como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial. Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estoica contra, centrada na confiança em si mesmo. Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos. Mas, entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida. A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende. Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos fatos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz. Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi gênio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Discurso publicado na íntegra na Revista Visão. 

18 de junho de 2025

A hipocrisia do corte de gastos!

  

Fernando Haddad e Hugo Motta (Foto de Marcelo Camargo da Agência Brasil.

Preferem tirar recursos da saúde e da educação — de quem mais precisa — a mexer com os lucros dos que enriquecem às custas da especulação.

Israel, sob o comando de Netanyahu e mergulhado em uma crise interna profunda, ataca o Irã. A justificativa? O argumento de que o país persa estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica — o que, para os defensores da ofensiva, representaria um risco à humanidade, já que esse armamento estaria nas mãos de um regime de “malucos”, radicais e extremistas.

Para mim, ninguém deveria ter bomba atômica, para começo de conversa. O chamado Tratado de Não Proliferação deveria, na verdade, ser um tratado de extinção. Mas não é. Os Estados Unidos — e vejam só — Israel, ambos possuem arsenais nucleares.

Ora, ninguém em plena sanidade e com um mínimo de honestidade intelectual deixaria de reconhecer que Trump e Bibi são, sim, radicais, extremistas e malucos. Mas lá estão eles, com o poder de ameaçar quem quiserem — ou quem tenha algo que eles desejem — com o simples apertar de um botão vermelho ou o uso dos códigos da maleta nuclear.

Essa hipocrisia também aparece no debate sobre as medidas fiscais enviadas pelo governo ao Congresso Nacional. Parlamentares alegam que a proposta não contém cortes suficientes nos gastos públicos. Mas sobre os R$ 60 bilhões em emendas parlamentares ou o fim dos supersalários no serviço público, silêncio absoluto.

Assim como o ataque ao Irã serve de cortina de fumaça para encobrir a queda de popularidade de Netanyahu, a gritaria por cortes de gastos tem servido para esconder o que realmente se busca: proteger os interesses de bancos e casas de apostas, que, se depender de parte do Congresso, continuarão pagando menos impostos.

Preferem tirar recursos da saúde e da educação — de quem mais precisa — a mexer com os lucros dos que enriquecem às custas da especulação e da fé do povo brasileiro. Mas quando se acidentam, correm para o 192 pedindo socorro.

A senha parece ter sido dada pela ministra Gleisi em entrevista publicada hoje. Se seguirem com esse discurso chantagista, a resposta pode ser simples: contingenciamento ainda maior das emendas parlamentares. A matemática é clara.

Mas há outro caminho. O Congresso poderia aprovar uma lei autorizando o governo a suspender o pagamento das amortizações da dívida pública com os bancos. Que tal congelar esses pagamentos por 20 anos, sem juros? Os parlamentares, tão zelosos com a redução de gastos, poderiam começar por aí. Afinal, dos mais de R$ 5 trilhões do orçamento federal, mais de R$ 2 trilhões vão para amortização da dívida — e note-se, nem é o pagamento, é apenas a amortização.

Resolveríamos o problema das contas públicas. E, por favor, não venham com a história de que isso quebraria o sistema financeiro. Estamos falando de juros abusivos cobrados sobre dinheiro que os bancos emprestaram sem sequer ser deles. Juros escorchantes. 

Autor: Oliveiros Marques: Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas. Publicado no site Brasil 247.

O império em ruínas, a barbárie em Gaza e o futuro que emerge!

  

Palestinos deslocados retornam para suas casas enquanto caminham perto de um ataque israelense durante o conflito, em meio à trégua temporária entre o Hamas e Israel, em Khan Younis, Faixa de Gaza.

O império está ruindo. Sua farsa não se sustenta mais. Mas ele ainda é perigoso.

Vivemos um tempo perigoso. As instituições que sustentaram a chamada ordem internacional, chefiada pelos Estados Unidos, se revelam apodrecidas, incapazes de esconder sua verdadeira face: a da opressão, do lucro acima da vida e do uso brutal da força para manter privilégios coloniais. Ao mesmo tempo, o império que prometeu liberdade e democracia exporta repressão, censura, desigualdade e, mais recentemente, genocídio.

Enquanto a crise social se aprofunda dentro dos próprios Estados Unidos, com protestos sendo sufocados à força, líderes sindicais sendo presos, direitos civis sendo esmagados sob o pretexto de segurança nacional, o mundo assiste ao massacre sistemático do povo palestino com a chancela da Casa Branca. Gaza virou um campo de extermínio a céu aberto. E não há exagero algum em dizer isso. Centenas de milhares de pessoas desalojadas, milhares de crianças mortas, hospitais bombardeados, alimentos negados. É um cerco medieval com armamentos do século XXI, financiado pelo maior império militar da história da humanidade.

A cumplicidade estadunidense com Israel no massacre da Palestina não é exceção, é regra. Reflete a lógica imperial que sempre guiou a política externa dos Estados Unidos: garantir aliados submissos, assegurar o controle sobre recursos estratégicos e sufocar qualquer voz de resistência. Apoiar Israel significa, para Washington, manter um bastião armado no Oriente Médio, uma base avançada para seus interesses no petróleo, no comércio de armas e na geopolítica global. Pouco importam as vidas palestinas. Para o império, elas são descartáveis. São "efeitos colaterais", como disseram em outras guerras, no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria.

A mesma mão que empurra as bombas em Gaza é a que fecha as portas para imigrantes na fronteira mexicana, que ergue muros, que prende quem protesta, que arma a polícia para matar negros nas periferias de suas próprias cidades. O império é coerente em sua brutalidade. Não distingue o inimigo externo do inimigo interno. Para os donos do capital, todos que ousam questionar a ordem são tratados como ameaça: sejam camponeses na Faixa de Gaza, grevistas em Chicago ou trabalhadores organizados em Los Angeles.

É nesse cenário que Donald Trump ressurge com força. Não como exceção, mas como expressão mais transparente dessa lógica de dominação. Ele é o rosto do autoritarismo que sempre existiu na política norte-americana, mas agora sem máscaras. Promete limpar o “pântano de Washington”, mas na verdade quer torná-lo ainda mais podre, entregando o governo ao fundamentalismo religioso, à supremacia branca e aos interesses corporativos. Seu projeto não é novo. É o velho fascismo pintado com as cores da bandeira americana. E há milhões prontos para segui-lo, armados, ressentidos, manipulados.

A deportação de imigrantes, a militarização da Guarda Nacional, os ataques aos direitos civis, a criminalização de protestos, o uso seletivo do Judiciário para perseguir opositores, a censura disfarçada de combate à desinformação – tudo isso mostra que a democracia americana está sendo desmontada de dentro para fora. A democracia liberal, tão vendida como modelo ao mundo, não passa de um espetáculo encenado para esconder a dominação de classe. Quando a classe dominante se sente ameaçada, joga fora o script. Foi assim na ditadura do Chile, no golpe contra o PT, na perseguição a Julian Assange. Está sendo assim agora.

Mas o mundo não é mais o mesmo. O domínio unilateral dos Estados Unidos encontra resistência. Não apenas nas ruas de Nova York, onde milhares protestam contra o genocídio em Gaza. Não apenas nos bairros operários que rejeitam o discurso de ódio e violência. A resistência se fortalece também nos espaços internacionais, na articulação entre países que recusam o papel de colônias submissas. O BRICS é hoje muito mais do que um bloco econômico. É um sinal de que a ordem imperial pode ser desafiada.

Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e agora países como Irã, Egito e Arábia Saudita começam a construir uma outra rota. Não porque sejam perfeitos, mas porque têm a coragem de dizer não à chantagem do dólar, aos tratados desiguais, ao domínio dos bancos norte-americanos. Começam a fazer comércio em moedas locais. Criam seus próprios sistemas financeiros. Defendem uma nova governança global. Isso assusta os senhores da guerra. Porque, no fundo, sabem que estão perdendo o monopólio da força e da mentira.

A América Latina precisa acordar para esse momento histórico. Nós, que já sofremos os golpes financiados pela CIA, que vimos nossos líderes assassinados, que enfrentamos ditaduras apoiadas por Washington, sabemos o que está em jogo. Sabemos que a democracia deles sempre foi um privilégio para poucos e um castigo para os pobres. Sabemos que a liberdade deles termina onde começa a nossa soberania. E sabemos, mais do que nunca, que não temos nada a ganhar com a submissão.

O povo palestino nos lembra, com sua dor e sua resistência, que nenhum império é invencível. Que um povo que luta não se rende. Que mesmo diante da destruição total, a dignidade não pode ser apagada. Gaza não é apenas uma tragédia. É também um grito. Um chamado à solidariedade entre os povos. Um lembrete de que não existe liberdade real enquanto houver colônia, apartheid e ocupação. O que fazem com a Palestina hoje é o que tentaram fazer com toda a periferia do mundo. Mas os tempos mudam.

É hora de ampliar nossa voz. Fortalecer a integração do Sul Global. Avançar na construção de uma nova ordem baseada na paz, na soberania, na justiça social. Reforçar nossas alianças populares. Valorizar o trabalho, a cultura, os saberes dos povos. Rejeitar a guerra como instrumento de poder. Substituir o lucro como medida de valor. Apostar na vida.

O império está ruindo. Sua farsa não se sustenta mais. Mas ele ainda é perigoso. Ainda mata. Ainda mente. Ainda corrompe. Por isso, a luta precisa ser firme. Precisamos de coragem para dizer não. De organização para resistir. De imaginação para construir.

Porque um novo mundo não é apenas possível. Ele já começou. Está nas ruas da Palestina. Nos sindicatos criminalizados dos EUA. Nos fóruns populares da África. Nas universidades públicas da América Latina. Na voz de cada trabalhador que recusa a barbárie e defende a esperança. Na convicção de que, por mais longo que seja o caminho, a história ainda pertence àqueles que se levantam. 

Autor: Henrique Pizzolato - Ex-sindicalista bancário; ex-presidente da CUT Paraná; ex-diretor da Previ e do Banco do Brasil; militante de Direitos Humanos e membro da Rede Lawfare Nunca Mais. Publicado no Site Brasil 247.