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1 de abril de 2026

Não é erro, é método: o PowerPoint da GloboNews e a distorção do caso Banco Master.

  

Após repercussão negativa, Rede Globo se retratou sobre power point associando o presidente Lula ao caso do Banco Master  Crédito reprodução.

O episódio do “PowerPoint” exibido pela GloboNews sobre o caso Banco Master não pode ser tratado como um deslize técnico ou uma falha pontual de edição. Ele revela algo mais profundo: a forma como as escolhas editoriais constroem, deliberadamente, sentidos políticos e protegem determinados campos de poder enquanto atacam outros.

A retratação posterior da jornalista Andréa Sadi, reconhecendo que o material era incompleto e que misturava naturezas distintas de relação, é um fato relevante. Mas está longe de ser suficiente. Porque, no terreno da comunicação política, o problema nunca foi a correção. O problema é a indução inicial, aquilo que já foi fixado como verdade no imaginário popular. E, ali, a imagem construída foi nítida. Ao posicionar o presidente Lula no centro visual de uma rede associada a Daniel Vorcaro, o gráfico operou por sugestão calculada. Não se afirmou diretamente — e é justamente por isso que funciona. A lógica é conhecida: não é necessário provar, basta insinuar até que a dúvida se transforme em convicção.

O que torna esse episódio ainda mais grave, no entanto, não é apenas quem foi colocado em evidência, mas quem foi deliberadamente protegido.

Nomes como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ciro Nogueira, todos associados, em diferentes níveis, ao entorno político e financeiro que orbita o caso, foram protegidos e empurrados para a margem da narrativa. Outros, como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira, sequer aparecem com o destaque que seria esperado diante das informações já conhecidas.

Isso não é apenas ausência, revela por trás, uma tentativa de blindagem política.

Esse tipo de recorte não é neutro. Ele reorganiza a percepção pública para produzir um efeito muito específico: diluir responsabilidades reais da direita e da extrema direita enquanto se constrói, artificialmente, uma suspeição sobre o governo federal.

E é ainda mais grave do que isso: cria equivalências falsas. Coloca no mesmo plano uma relação institucional — como a de um presidente da República que recebe agentes do sistema financeiro — e vínculos políticos, eleitorais e financeiros muito mais diretos e estruturais envolvendo figuras do campo bolsonarista.

Misturar essas camadas não é erro metodológico. É manipulação clara!

A reação pública ao material, majoritariamente crítica, indica que há uma fadiga social em relação a esse tipo de construção. Ainda assim, seria um erro subestimar seu efeito. Porque essa narrativa não se limita ao debate qualificado, ela se infiltra no cotidiano, no senso comum, nas conversas informais, onde frases como “Lula está envolvido” passam a circular descoladas de qualquer base factual.

E é exatamente assim que se constrói percepção política no Brasil.

Esse padrão não é novo. Ele é parte de um método que já produziu consequências devastadoras para a democracia brasileira. Foi assim no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, quando uma cobertura enviesada ajudou a legitimar uma ruptura institucional sem crime. Foi assim na prisão injusta de Lula, sustentada por uma engrenagem político midiática que operava em sintonia com os abusos da Operação Lava Jato, conduzida por Sergio Moro e Deltan Dallagnol. E foi essa mesma lógica — de sugestão, repetição e falsa neutralidade — que ajudou a pavimentar o caminho para a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Há, portanto, responsabilidade histórica. E ela precisa ser nomeada. Quando a imprensa se esconde atrás de uma suposta neutralidade para fazer recortes seletivos, omitir atores centrais e induzir interpretações, ela deixa de ser mediadora da informação e passa a ser agente político ativo com impacto direto sobre os rumos do país.

No caso do Banco Master, o que se viu foi exatamente isso: uma tentativa de reorganizar a narrativa antes que os fatos se consolidem, protegendo setores da direita enquanto se reativa, mais uma vez, o velho atalho da associação indevida ao campo progressista.

Portanto, não se trata de interditar a imprensa. Trata-se de expor o método. Se há uma rede a ser apresentada, que ela seja mostrada como é, com seus verdadeiros protagonistas, suas relações concretas e suas responsabilidades políticas devidamente atribuídas. A retratação é um passo. Mas não corrige o essencial, porque o problema não está no erro. Está na escolha. E essa escolha, como a história recente já mostrou, nunca é neutra. No fim, não é sobre um gráfico mal feito. É sobre quem se tenta proteger, e quem, mais uma vez, se tenta condenar sem prova. 

Autora: Gleide Andrade é secretária nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT). Publicado no Brasil de Fato.

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