28 de julho de 2013

Apenas, menos

Um amigo de Proust passou seis anos sem ir a Paris. Viajou, casou, ganhou dinheiro, viveu. Encontrou-se com o escritor na rua, por acaso. Os dois haviam sido amigos íntimos. O amigo quis saber se era o mesmo ou se havia mudado fisicamente durante os anos de ausência.

Proust respondeu, enigmaticamente: “Tudo bem com você, apenas menos”. O amigo se surpreendeu: Menos o quê? Menos bonito? Menos rico? Menos saudável? Menos inteligente? Proust explicou: “Nada disso. Você está o mesmo. Apenas menos”.

O episódio é de uma época sofisticada, vivido por pessoas esnobes, num clima de requintada frescura. Mas não deixa de ser uma lição. Com o tempo, não pioramos necessariamente. Continuamos na mesma, belos ou feios, bons ou maus inteligentes ou burros. “Só que menos”.

A sutileza passa despercebida de nós próprios. É preciso um encontro, um acaso, até mesmo o testemunho explícito de um observador que possa captar o que em nós está “menos”. Menos brilho no olhar, menos vitalidade no gesto, menos decisão na voz, menos rapidez no pensamento, menos alegria no sorriso. O tempo é carrasco gradual, não tem nem precisa ter pressa. Ninguém fica burro da noite para o dia, nem perde o encanto no espaço de uma manhã – como as sovadas rosas de Malherbe.

O ritmo com que ficamos cada dia “menos” dará a medida de nossa decadência. Das quais todos teremos o tributo da carne para pagar. Outra noite, para distrair a insônia, pulando de canal em canal na TV, parei num comercial feito pela Xuxa. Lembro-me dela posando para capas de revistas, algumas delas dirigidas por mim, 15 anos atrás. Descobri que ela estava alguma coisa ”menos”.

Evidente que também tenho meu quinhão. Nem preciso de espelho e do testemunho alheio para sentir no olhar fatigado, no cansaço de tudo, que eu também estou menos – cada vez menos.

Texto de Carlos Heitor Cony, publicado na Folha de São Paulo.

Homenagem a este escritor da melhor qualidade que tenho o prazer de acompanhar durantes os últimos anos semanalmente na Folha de São Paulo.

Um comentário:

Rádetonando disse...

Creio que, o menos está relacionado à uma condição insegura sobre a naturalidade dos acontecimentos, por falta de aceitações ou, informações a respeito. Restrições ao entendimento dos, por quês, seguem em compassos de manutenções de algo que nos impede em apressar aquilo que fatidicamente irá ocorrer. A maturidade, em relação, é atenuante à severidade de algo que não se pode escapar. A conformidade é gerada pelo acontecimento, vez que não podemos fazer muito pela manutenção da "forma que se deteriora". À sociedade cabe, um pouco mais de admiração para sustentar a estima dos anciãos carregados de informações, à ela, muito úteis. Em maioria, educada, os orientais jovens, são respeitadores, motivadores de uma existência que se prolonga, além expectativas. Tudo é uma questão de, pontos de vista, mas, o mais importante é destacado pela visão interior que cada um terá a seu respeito, em relação ao seu próprio envelhecimento.