12 de outubro de 2017

É na sala de aula que devemos ensinar religião?

“Fanatismo, esse filho
desnaturado da religião.”
Voltaire.

A meu ver o ensino religioso deveria ser ensinado em casa, preferencialmente pelos pais, e praticado junto das comunidades confessionais. Nas escolas públicas, os princípios éticos e morais deveriam ser a pauta para discussões diversas sobre vários temas que dissessem respeito a ambas.
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de autorizar o ensino religioso, deixando a cargo do professor ou da escola a vinculação a uma crença específica é a certeza do andar para trás e sem rumo.
O Brasil é um Estado laico e, portanto, deveria incentivar o diálogo entre as mais diferentes confissões no intuito de formar cidadãos tolerantes com as opiniões divergentes. Optando pelo ensino doutrinário de uma religião exclusivista, afundamos ainda mais no pântano do sectarismo em que estamos estacionados.
Nossa sociedade precisa cobrar do Estado um projeto educacional que privilegie a qualidade da educação, a capacitação dos nossos professores para que estes possam promover o debate constante da educação para a cidadania.
Esse conteúdo somente pode ser encontrado no domínio da filosofia, e não na discussão sobre moral submetida a preceitos religiosos duvidosos. Embora alicerce as religiões, a ética as suplanta, pois seus princípios são universais, ou seja, valem em qualquer tempo e em qualquer lugar – enquanto a moral muda conforme os hábitos, costumes e interesses característicos do tempo e do lugar.
“Não roubar” é um conceito ético, que independe da época e do lugar em que se vive e que está presente, acredito na base de todas as religiões do mundo. No entanto, como as religiões defendem princípios morais e não éticos, em nome de Deus, cristãos roubam a liberdade de outros irmãos, muçulmanos roubam a vida de cristãos, e estes vingam seus irmãos roubando a vida de muçulmanos.
Deveríamos lutar para que nas escolas públicas se ensinasse o princípio ético “não roubar, não matar” em geral, ou seja, o respeito à vida de todos igualmente, e não sua derivação moral, de que a ideia de “não matar” não serve para aqueles que pensam ou agem diferente de nós.
Recente pesquisa do departamento de Psicologia da Universidade de Chicago (EUA) concluiu que crianças educadas em lares não religiosos são mais tolerantes e generosas que as criadas segundo princípios religiosos. Os investigadores recrutaram 1.170 crianças de diferentes crenças em seis países (Canadá, China Jordânia, Turquia, EUA e África do Sul) e demonstraram que há maior coesão entre os membros de grupos religiosos e maior nível de intolerância com quem está de fora. As pessoas que não têm religião tendem a ser mais solidárias, exatamente por não fazerem distinção entre as diversas crenças religiosas.
No Brasil imerso em denúncias de corrupção e cercado pela incompetência generalizada da gestão do Poder Público, vem ancorando seu desencanto na falsa segurança do moralismo. Falsa segurança porque o moralismo – diferente da ética – funda-se em interesses momentâneos de alianças espúrias. Em geral, o moralismo é uma cortina que esconde a hipocrisia e o cinismo. O moralismo censura obras de arte, persegue confissões divergentes, reprime opiniões contrárias, e, pior, mata homens e mulheres.
Em nome do moralismo, quatro mulheres morrem por dia devido a complicações provocadas por abortos clandestinos – mulheres pobres, diga-se de passagem. Em nome do moralismo, todo dia uma pessoa LGBT é assassinada. Em nome do moralismo, as religiões afro-brasileiras (umbanda e candomblé) são cada vez mais hostilizadas, principalmente pela militância fundamentalista evangélica, a ponto de praticamente desaparecerem em alguns nichos tradicionais como as comunidades do Rio de Janeiro.
Precisamos lutar com afinco por uma sociedade mais justa e principalmente mais tolerante. Embora tenhamos a nítida impressão que o Brasil está mais próximo da Idade Média com todo o obscurantismo que marcou aquela época do que o século XXI e toda sua modernidade tecnológica.

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