11 de outubro de 2016

Esquerda - Povo - Direita...

Nas últimas duas décadas estabeleceu-se no Brasil uma dicotomia artificial. O Brasil é de Direita ou de Esquerda? Os panfletários da rede dizem que de 1960 a 1964 o Brasil era de Esquerda e que de 1964 a 1985 o Brasil tornou-se de Direita. Já a partir de 1985 a 1990 o Brasil de Sarney, fruto de sua origem na Arena, continuou tendendo ligeiramente à Direita e que de 1990 a 1994 começou caçando marajás com Fernando Collor à Direita e inflexionou ligeiramente à Esquerda/Direita com Itamar Franco.
Em 1995 ainda que elegendo um sociólogo cassado, Fernando Henrique Cardoso, muitos juram que ele era de Direita, pois promoveu a “Privataria” e “entregou” o patrimônio público ao capital estrangeiro, até que em 2002 veio a “revolução socialista redentora” de Luiz Inácio Lula da Silva e seu Partido dos Trabalhadores e então seguiram-se 13 anos do mais “puro socialismo de resultados”, que até hoje a Operação Lava Jato busca “apurar” o Balanço Final.
Pois bem, vou sentar-me na “cadeira do povo”, bem no Centro dessa arena, como se estivesse em um planetário e ficar analisando, olhos fitos nessa abóboda política constantemente móvel, para tentar definir o que verdadeiramente mudou a minha vida.
Nos anos 1960, fruto da construção acelerada de Brasília, ainda que um processo de aceleração na industrialização promovida por JK ainda no final dos anos 50, como a implantação da indústria automobilística, construção de hidrelétricas na Bacia Tietê/Rio Grande e Paraná, o brasileiro começou a sentir o gosto amargo da inflação. Foram anos seguidos de aumentos salariais de 100% correndo atrás dos preços então tabelados pela SUNAB. Jânio Quadros bem que tentou fazer reformas estruturantes a começar pela moeda, mas o que sobrou do seu breve governo foi à proibição das rinhas de galo, corridas no Jockey Clube e a proibição de biquínis nos concursos de Miss Brasil. Embriagado renunciou.
E o povo, que apostou na “vassoura” acabou sentado no cabo dela. Contra a vontade da turma dos Tenentes de 22, mas fortemente apoiado por uma ala militar ainda não alinhada, assumiu a Presidência, João Goulart, que nunca se alinhou automaticamente à Esquerda, a não ser por algumas propostas de Reforma: a Trabalhista, a da Educação e a Reforma Agrária, que o lançou definitivamente no colo das esquerdas.
Foram anos de muita instabilidade política pela falta de base de apoio no Congresso, inflação corroendo o poder aquisitivo dos salários e como consequência muitas greves, uma grande maioria de caráter político espalhadas principalmente por São Paulo e Rio de Janeiro e por consequência a criação da maior central sindical brasileira a CGT, de tendência comunista. A criação dos Grupos dos Onze, (Leonel Brizola) e das Ligas Camponesas, (Benedito Julião), além das rebeliões militares de cabos e sargentos nas Forças Armadas reacendeu nos Militares a vocação intervencionista, já anteriormente manifestada em 1945, contra seu Padrinho Político, (Getúlio Vargas).
Ainda que em ambiente tão conturbado, eu o povo, pacientemente trabalhava para enfrentar a carestia, (fila do pão, fila da carne e etc.), pois tinha barrigas a encher e dizem até por aí, que participei da Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo e do Comício da Central do Brasil.
Em 1964 assumiu o primeiro Governo Militar com a falsa promessa da transição e Eleições Gerais em 1965. Falhou e assumiu Costa e Silva com as primeiras reformas estruturantes, que provocaram forte recessão em 1967, mas que por outro lado roubou todas as bandeiras da Esquerda: FGTS em troca do incerto Indenização por Tempo de Serviço, BNH com os primeiros programas de Casas Populares para o povo até então refém da famigerada Lei do Inquilinato, que foi plataforma política por muito anos.
Foi criado o FUNRURAL para aposentar trabalhadores rurais aos 65 anos e o esboço da primeira Reforma Agrária ao longo das rodovias em construção como a Transamazônica, Perimetral Norte e Belém Brasília.
Seguiu-se um forte processo de substituição de importações e consequente industrialização, com larga expansão de investimentos em infraestrutura, que provocou um aceleramento, até então inédito, do emprego e da renda, com a criação de uma “nova classe média” baseada na criação de vagas de curso superior e uma redução acentuada da inflação. Tudo isso fez com que um Maracanã lotado aplaudisse de pé um General Ditador, Médici, fato esse invejado até hoje pelas Esquerdas.
Eu, um povo de “noventa milhões em ação”, era partícipe do Milagre Brasileiro.
Entretanto, tudo isso começou a esfumar a partir de 1977 após os dois choques do petróleo e eu, povo, voltei a sentir os mesmos sistemas antigos, mas só que agora após ter sentido o “doce sabor” de ser a oitava economia do mundo. A frustração após um grande amor é sempre maior que a dos “amores meia boca”.
Veio à década perdida iniciada em 1979, ainda que assinada a Lei de Anistia e o retorno das lideranças exiladas desde os anos 70 e que seguiu até 1994, (Sarney, Collor e Itamar) e então o Plano Real, após eu, povo, sentir na carne uma inflação de 100% ao mês.
Não resta a menor dúvida, que o período 1995 a 2015, foi o das maiores transformações, quer da modernização da Economia, como da implantação das políticas compensatórias à população de baixa renda e das habitações populares. Ao contrário do que apregoava Delfim Neto durante os Governos Militares, que havia que deixar crescer o bolo para depois repartir, começou-se a dividir um bolo, que já não crescia mais. Começamos a comer o “bolo alheio” aumentando exponencialmente nossa Dívida, não com o FMI a juros baixos, que “pagamos”, mas agora Interna “dolarizada”. Pulamos de R$ 800 bilhões para R$ 2,7 trilhões. Esse foi o “milagre do crescimento” do período, além da perda de mais de 12 milhões de postos de trabalho.
O mais importante para mim, povo, é que continuo sentado no planetário, olhando para cima, vendo estrelas cadentes sumindo do céu e outras supernovas, que não sei por quanto tempo vão durar, mas nada fazendo para influir no processo político, nem mesmo para determinar a “qualidade da luz” desses novos sóis.
Afinal, sou povo e povo é manada, esperando o novo capataz e seu ferrão condutor.

Autor: Antonio Figueiredo
Publicado no Site Grupomoneybr...Painel Express


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