14 de fevereiro de 2015

Time de futebol não é herança!

Que triste seria ter um time
escolhido para mim,
como um noivo prometido e não desejado


Um casal de amigos acabou de ter um filho. Exibem com orgulho o moleque de roupinha do Fluminense, mesmo morando em São Paulo. O pirralhinho nem sabe se vai gostar de futebol, mas já tem até uniforme completo --sem direito de escolha. Crueldade. Torcer por um time não deveria ser tratado como herança genética. É como seguir a carreira de médico apenas porque está "no sangue" da família.

A criança tem pavor até da cor vermelha, brinca de advogado desde pequena, mas como os pais acham que é o melhor, vai ser medicina mesmo. E dá-lhe frustração. Não acho que torcer por um time herdado cause o mesmo estrago. Só não é nada natural nascer, ganhar um nome e um time de futebol. Ser obrigado a vestir uma camisa quem nem vive mais as glórias da época dos pais ou dos avós. Mudaram os jogadores, mudaram os times, mudou o futebol.

Eu mesma só caí de amores por um time quando já tinha mais de 20 anos. Tinha ídolos na adolescência, mas nenhum jogava esse tipo de bola. Por causa do basquete, que eu adorava, fiquei petrificada quando assisti a um jogo com Hortência e Magic Paula. Durante muito só pensava nelas.

Futebol pra mim era de quatro em quatro anos, quando o Brasil entrava em campo, ainda que o esporte sempre tenha tido audiência na casa dos meus pais. Meu pai torce pro Coxa, time do nosso Estado, para o Santos, por causa do Pelé, e para o Flamengo, porque moramos no Rio durante um tempo. Minha mãe é Coxa e Corinthians. Meu irmão é corintiano, e minha irmã, Coxa. Eu não era nada. Vai vendo.

Até que fui parar no estádio do Morumbi com um grupo de corintianos. Fui pela farra. Acontece que aquele dia não era um dia qualquer, nem um jogo qualquer. Era 28 de novembro de 1999, primeira partida da semifinal do Campeonato Brasileiro. Era São Paulo e Corinthians em campo. Seria um dia sublime da carreira do goleiro Dida. Seria um jogo que Raí nunca mais esqueceria. Seria o dia que eu me tornaria corintiana desde criancinha.

Senti-me pequena diante da grandiosidade da Fiel. Quando me dei conta, gritava junto todos os hinos e palavrões. "Filha, que feio", disse minha mãe. E eu gritava. E torcia. E queria uma camisa preta e branca para mostrar que também era um deles. Foi amor à primeira vista, paixão avassaladora. Nem sei como tinha vivido sem aquele sentimento.

O fim do jogo vocês sabem. O Corinthians ganhava de 3 a 2, e Raí perde dois pênaltis nas mãos de Dida, um aos 45 minutos do segundo tempo. Perdi a voz, perdi a estribeira, perdi a compostura, gritava e pulava. Que belo dia para converter uma ateia futebolística em mais uma louca num bando de apaixonados.

Que triste seria não ter tido esse batismo, que triste seria ter um time escolhido para mim, como um noivo prometido e não desejado. Que triste as crianças que nascem com uma bandeira e crescem em relações muitas vezes mornas. "Por que mesmo torço para esse time que só perde?", devem se perguntar. Deixem as crianças escolherem seus times, seus ídolos, que tenham suas próprias vitórias e derrotas. A vida é muito chata sem paixão. E futebol sem paixão é muito mais chato.

Mariliza Pereira Jorge é jornalista e roteirista. Já trabalhou na Folha e na TV Globo, escreveu para as revistas Veja e Men’s Health, VIP entre outras. Este texto foi publicado na Folha de SP em 14/02/15.

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