5 de janeiro de 2013

Vivendo na escuridão

Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros,
mas os pensadores, os gênios, os fachos de luz e
os promotores da espécie humana são aqueles
que as leram diretamente no livro do mundo.
Arthur Schopenhauer

       Diante do momento difícil que a humanidade atravessa, me recordei do romance “Ensaio sobre a cegueira” do escritor português José Saramago, que versa sobre uma epidemia de cegueira súbita, uma “treva branca”, que vai acometendo as pessoas e espalhando-se de maneira incontrolável. E de uma multidão de cegos colocados em quarentena, entregues a si próprios, tateando e tropeçando maneiras de permanecerem vivos.
      Um relato contundente de seres humanos reduzidos às necessidades mais básicas. Pessoas com olhos que não vêem, sem nomes (de que lhes valeria o nome naquelas circunstâncias?), corpo apenas, sem identidade. Em luta entre si pela comida insuficiente, ameaçadas pela doença e pela morte, num profundo desamparo.
      Diante de condições miseráveis, o correto seria a ajuda mútua, a cooperação, a unidade em torno do mal comum. Mas, surpreendentemente, cada um toma o seu lugar e dele não se desloca, todos amarrados as suas necessidades somente, medrosos, ameaçados, defensivos, cegos uns para os outros. Surge assim a tentativa de alguns poucos cegos de subjugarem e submeterem aquela multidão ao seu poder, através dos meios mais ilícitos e desumanos.
      Saramago, com habitual maestria, nos coloca de frente com o real de todo dia. Obriga-nos a uma profunda introspeção para que possamos enxergar de olhos fechados. Enxergar a nós próprios, os outros e as coisas, condições básicas em nossas vidas.
        Como os personagens do romance, também temos olhos que não vêem. Colidimos e, em alguns momentos, tropeçamos no semelhante, sem enxerga-lhe o nome... Esbarramos como se fosse um objeto qualquer... Vivemos no início de um novo milênio e, nosso povo é obrigado a sobreviver de forma miserável, tal qual os personagens de Saramago.
       Nossos governantes perderam a dimensão do reconhecimento pelos seres humanos, no atendimento as necessidades tão básicas como alimentação, saúde, educação, moradia digna e segurança. Nossos políticos uma vez no poder, não enxergam a urgência da expressão do afeto, da honestidade, da sinceridade de princípios cristãos e humanos.
       A maioria dos políticos não tem o mínimo respeito para com toda a imensa nação que de tanto sofrer já perdeu a esperança no amanhã, vivendo na fronteira de sua paciência. Sabedores de que nosso imenso continente poderia possibilitar nossa autossuficiência em alimentação e nos tornarmos uma potência mundial.
     Ao contrário nossa escória política usa o povo a cada quatro anos com propaganda enganosa para chegar ou se manter no poder. Depois vira-lhes as costas desejando que nós não existíssemos, para não corrermos o risco de atrapalhá-los em seu tortuoso caminho de mentiras, improbidades, ganância e escuridão moral.
     E com tudo isso, temos vivido uma relação em que somos cegos. Não enxergamos a melhor opção na hora da eleição (às vezes anular o voto pode não ser a melhor estratégia) e quase sempre esquecemos o que fizemos na eleição passada.
     A maioria dos políticos brasileiros desde a ditadura militar de 1964 está jogando à autoestima do povo brasileiro para um abismo sem fim, e isso acaba se tornando um círculo vicioso a cada novo pleito. Quando então estamos doentes do corpo e alma, no que tange a ausência de uma política séria voltada para as graves crises que assolam nosso cotidiano.
     Precisamos admitir enquanto povo de terceiro mundo nossas fraquezas, nossas singularidades oriundas de nossa cultura e buscarmos uma reviravolta nesse jogo em que estamos perdendo de goleada. Precisamos com urgência alijar da vida pública esses homens que usam o poder para enriquecimento ilícito e nos matam lentamente, e, enquanto ainda temos tempo e vida, porque somos finitos.

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