2 de junho de 2012

Um homem e seu destino

Nada era mais importante na vida daquele pobre homem simples do que sua família. Em segundo lugar num degrau de honra vinha a música, que era sua segunda paixão e por quem vivia nas noites e madrugadas frias de São Paula. Para a família vivia todos os dias, para a música quase todas as noites de sua vida.

O violão, seu inseparável companheiro que quem executava seus acordes e deixava fluir suas canções, preces e gemidos nas grandes bebedeiras que às vezes tomava conta de suas noites com os amigos e às vezes com estranhos que mal conhecia.

O mundo globalizado levou seu emprego numa das muitas privatizações em SP e o deixou a fazer bicos em empresas terceirizadas, sem carteira assinada, sem presente e com futuro duvidoso, vivia às vezes do passado, quando era empregado de uma grande empresa pública.

O mundo branco também lhe impingia um desconforto a mais em razão de sua negritude afro brasileira, fazendo com que em certas ocasiões temesse pelo futuro de seus filhos. Mas a morena que tanto amava não lhe deixava cair em depressão e o empurrava para cima quase sempre, fazendo-o enxergar estrelas cadentes em pleno céu de tempestades.

E de bico em bico, de bar em bar a vida passava pela soleira do seu barraco na periferia, e a cada novo amanhecer a esperança enchia seus pulmões novamente ajudando a disfarçar suas olheiras pela noite na roda de samba no Bar do Eustáquio lá na vila.

Era uma pessoa simples de gestos e costumes que combinavam com sua origem pobre desde a pacata cidade de Lorena no interior paulista até a periferia de São Paulo naqueles dias. E a música e a cachaça que eram seus maiores amigos nas noites das rodas de samba acabaram selando de forma trágica seu próprio destino.

Foi numa noite de festa com seus velhos amigos da CMTC, antiga empresa municipal de transporte urbano de São Paulo que havia sido privatizada, jogando no mercado de trabalho centenas de desempregados. A música se estendia pela madrugada afora quando o “negrão”, como era carinhosamente chamado pelos velhos amigos resolveu mudar seu destino ao sair contra a vontade de todos que ali estavam na festa.

Alguns insistiram e pediram para ele ficar, ou quem sabe, ir de taxi para casa naquela madrugada que seria de despedida entre ele, sua amada, seus filhos e seu violão.

E os sorrisos viraram lágrimas em questão de minutos, o violão despedaçado não mais daria seus acordes dissonantes e os amigos não mais poderiam contar com o amigo que em plena marginal Tietê acabara de virar mais um número nas estatísticas do trânsito paulistano.

Morreu um amigo sambista cujo destino fora levar alegria a tantos desconhecidos, morreu um pouco da alegria retratada em tantas festas e pagodes, morreu meu amigo Gilberto.

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