19 de fevereiro de 2012

O sindicalista que sabia ouvir

Estávamos vivendo o final da década de oitenta em SP em plena retomada do processo de redemocratização do país após o recente fim do regime de ditadura militar no país. Em SP o PMDB mantinha sua hegemonia e governava com Franco Montoro.

O movimento sindicalista tinha ainda aquela altura o Partido dos Trabalhadores na oposição de alguns grandes sindicatos, a maioria era dominada até então pelas antigas centrais filiadas a CGT – Central Geral dos Trabalhadores.

Era moda e normal naquele período haver grandes discussões políticas, quer seja sobre o fim da ditadura militar, sobre o surgimento do PT, uma nova alternativa de poder ou sobre a ideologia marxista ou a manutenção do capitalismo ao redor do mundo.

A URSS ainda existia assim como a Alemanha estava dividida ao meio pelo muro de Berlim. Eram tempos de muitas teorias e ainda poucas ações. Muito ceticismo e o risco de uma grande guerra entre EUA e URSS.

Eu presenciei um começo de abertura política após a eleição de Franco Montoro ao governo do Estado de SP. Aos poucos os sindicatos e os partidos políticos começavam novamente a discutir e incentivar a participação popular na política sindical e partidária.

Na empresa em que eu trabalhava núcleos do PMDB e do PT começaram a ser formados e discutiam à exaustão todo processo de discussão política e das ferramentas de controle das gestões da época.

Chamou minha atenção um fato naquela época que ficou restrito a poucos amigos e companheiros de trabalho. O sindicato havia elegido representantes por andares nos prédios da empresa, respirava-se democracia.

Um amigo muito inteligente e profundo conhecedor de política interna e externa, com ênfase para o socialismo e o comunismo, sendo um leitor contumaz de obras de Liev Tolstói, Marx, e outros grandes nomes da literatura soviética um dia foi jantar com alguns amigos e encontrou um famoso líder sindical da época no restaurante.

Após jantar com os amigos ele foi chamado à mesa do sindicalista para conversar sobre a situação de uma iminente greve que rondava as negociações entre sindicatos e empresa naquele momento.

A conversa avançou noite adentro, uma garrafa de uísque foi devorada e da análise do momento de tensão passaram para uma conversa sobre ideologia e a velha discussão entre capitalismo e comunismo.

A partir deste momento da discussão quando a mesma caminhou para o rumo ideológico e saiu da análise fria do momento, o sindicalista ficou apenas como ouvinte, fazia apenas algumas perguntas, mas não interrompia o interlocutor em momento algum. Ouvia de forma absolutamente silenciosa e não demonstrava querer interromper aquela aula sobre política externa.

No dia seguinte por volta das onze horas em plena avenida paulista havia uma grande passeata marcada pelo sindicato com direito a carro de som, bandeiras e muita gente na luta por melhores salário e benefícios. O fato era corriqueiro e poderia passar despercebido não fosse pelo fato de que presenciamos o então sindicalista discursar de forma diferente.

Ele discorreu sobre comunismo, Lenin, Marx e surpreendeu a todos que acompanhavam aquela marcha na avenida paulista perto do meio dia. Meu amigo então me chamou de lado e me disse:

_ Ele está discursando em cima do que lhe falei ontem no jantar. Não sabe nada de política externa, nem de comunismo, sequer já leu um livro sobre o assunto, entretanto, ontem me ouviu com atenção, soube como ninguém transformar as informações que lhe passei neste discurso.

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