25 de dezembro de 2011

Uma estória de Natal

Aquela criança sentada na soleira, tristonha e sem perspectiva alguma, era o reflexo da noite escura que dominava o horizonte naquela pobre cidade do interior do Brasil. O frio característico das noites de Natal europeu era substituído pelo clima tropical quente e abafado que sufocava a todos em suas casas.

A criança olhava para o céu escuro como se quisesse encontrar uma luminosa estrela cadente ou como querendo avistar algo além das montanhas intransponíveis que faziam a guarda oficial da sua cidade. A noite apenas estava começando, os sonhos daquela pobre criança movimentavam suas fantasias e lhe traziam à mente um tempo de felicidade e alegria que jamais haviam saído de suas melhores fantasias.

Os pais, trabalhadores humildes do campo nada podiam fazer e sequer ousavam prometer algo que sabiam ser impossível de cumprir. Nenhum tio afortunado, nenhum padrinho na cidade, nada com que pudesse sonhar naquela noite especial de Natal.

Então, por que sonhar na soleira do alpendre de madeira desgastado pela corrosão do tempo? Isso ninguém poderia responder por aquela criança. Nas ruas um tímido movimento de pessoas apressadas querendo chegar com seus pacotes pequenos, geralmente alimentos para a ceia que estava por vir. Poucas surpresas, nenhuma loucura e muito cansaço apenas naquelas pernas e braços que carregavam as últimas compras do ano.

Um misto de alivio e comiseração confundia os corações daquela gente nos minutos que antecediam o Natal. O aniversário de Jesus era o motivo da festa, o aniversariante estava ali no meio de todos e sua presença aquecia o corpo surrado daquelas pobres almas sofridas.

A criança suada, cansada e sonolenta não conseguia mais suportar o peso de seu pobre corpo mirrado, suas pálpebras pendiam para baixo de forma suave, mas constante. O sono era o alimento para seus sonhos e fantasias, acordar seria muito mais difícil do que necessariamente dormir. Ao fechar os olhos esqueceria a pobreza, as dificuldades de seus pais, os desencantos tantos desencontros que a vida já havia lhe reservado naqueles poucos anos de vida.

Ser pobre á algo com que ele e todos seus vizinhos aceitavam, resignados, entendiam, porém o que incomodava era a falta de quaisquer perspectivas para o futuro. Sonhos eram apenas e tão somente sonhos para aquele garoto mirrado da periferia daquela pequena cidade.

Mas como que por milagre um carro parou na porta de sua casa, não era ninguém conhecido, não era ninguém esperado, até por que a família não esperava por ninguém àquela hora, aliás, não tinha amizades com ninguém que tivesse um carro tão bonito como aquele parado misteriosamente a frente do seu portão.

Do carro desceram duas crianças bem vestidas com alguns pacotes nas mãos e os entregaram ao casal que os atendeu, disseram que se tratava de uma ajuda e que os brinquedos eram para o garoto que sempre estava sentado naquela porta, como se assim esperasse ganhar um presente a qualquer momento.

Em seguida, chamada por seus pais, as crianças entraram naquele automóvel e foram distribuir mais felicidades e sonhos para outras famílias vizinhas. Os olhos do menino brilharam mais do que a última estrela do céu naquela noite quente. Por alguns instantes, por um momento fugaz ele percebeu que havia esperança, que havia motivos para acreditar em Deus, em Papai Noel ou simplesmente na magia do natal.

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